30 de abril de 2011

6º Campeonato Internacional de Cães Pastor / 6 th International Championship of Shepherd Dogs

6º Campeonato Internacional de Cães Pastor
6 th International Championship of Shepherd Dogs
Hoje, na Herdade do Freixo do Meio, Alentejo! Não Perca!
Today, at Herdade do Freixo do Meio, in Alentejo, Portugal, is held the 6th Grazing trial! Don't Miss!

25 de abril de 2011

Haverá uma Moralidade Universal?

"  A justiça pressupõe uma preocupação pessoal pelos outros. É antes de mais um sentido, não uma construção racional ou social, e quero argumentar que, este sentido é, num sentido importante, natural."   
Robert Solomon, Uma Paixão pela justiça (A passion for justice: Emotion and the Origens of the Social Contract, Lanham, MD: Rowman & Littlefield Publishers, Inc. 1995: 102.
É um “especismo” antropocêntrico egoísta afirmar que somos os únicos seres morais no reino animal. A moralidade social, demonstrada durante o jogo, é uma adaptação partilhada por muitos animais. O comportamento de justo evoluiu porque ajudou os animais jovens a adquirir competências sociais (e outras) enquanto amadureciam para se tornar adultos. Ser correcto também é importante para manter grupos cooperantes bem lubrificados e eficientes. Pode mesmo haver cooperação entre diferentes espécies durante caçadas em grupo. Se encontrarmos consistência entre espécies em termos de como cooperam e negoceiam os acordos de rectidão, podemos descobrir uma moralidade universal. Essa moralidade também pode ser importante na aquisição, defesa e partilha de alimentos, no acto social de catar e no cuidado comunitário dos filhotes.
Em The Origens of Virtue (As origens da Virtude), Mark Ridley salienta que os seres humanos parecem ficar estranhamente perturbados com a injustiça. Contudo, não sabemos muito sobre como os outros animais reagem à injustiça. Todavia, estamos a descobrir algumas boas pistas para os estudos a partir da observação dos animais a brincar e poderemos em breve incluir um sentido de justiça como traço partilhado. E o perdão? Este é outro traço moral que é frequentemente atribuído apenas aos seres humanos, mas o biólogo evolucionista de renome David Sloan Wilson demonstra que o perdão á uma adaptação biológica complexa. No seu livro Darwin’s Cathedral: Evolution, Religion, and the nature of Society (A Catedral de Darwin : Evolução, Religião e a natureza da Sociedade) Wilson afirma: “ O perdão tem um fundamento biológico que se estende a todo o reino animal.” (David Sloan Wilson, Darwin’s Cathedral: Evolution, Religion,and the nature of Society, Chicago: University of Chicago Press, 2002): 195, 212. E ainda:”O perdão tem muitas faces – e precisa de ter – para funcionar adaptativamente em muitos contextos diferentes. (ênfase de Wilson)”. Apesar de Wilson se concentrar principalmente nas sociedades humanas, as suas perspectivas podem ser alargadas - e com responsabilidade – aos animais não humanos. Na verdade, Wilson salienta que traços de adaptação como o perdão podem não requerer tanta capacidade cerebral como se pensava. Isto não significa que os animais não sejam espertos, mas sim que o perdão pode ser um traço básico em muitos animais, mesmo que não tenham cérebros especialmente grandes e complexos. 
É evidente que a moralidade e a virtude não apareceram de repente no início evolutivamente épico começando pelos seres humanos. As origens da virtude, do igualitarismo e da moralidade são mais antigos do que a nossa própria espécie. Apesar de o jogo limpo ser uma forma rudimentar de moralidade social, pode mesmo assim ser um precursor de sistemas morais humanos mais complexos e mais sofisticados. Mas talvez o mais importante, ao tentarmos aprender sobre o perdão, a justiça, a confiança e a cooperação entre os animais, talvez seja que também vamos aprender a viver com mais compaixão e cooperação com os outros.
(In Mark Bekoff, “A Vida Emocional dos Animais”, 2008)

12 de abril de 2011

“Sentimos, logo antropomorfizamos”

Neurónios em Espelho

Os sentimentos conseguem saber?

In Mark Bekoff, “A Vida Emocional dos Animais”, 2008)
 
Ao falar atrás sobre antropomorfismo, discuti-o como sendo principalmente uma questão de linguagem. Só temos termos humanos para descrever o que vemos. Contudo, há um nível mais profundo. Sei que eu – e muitas outras pessoas e investigadores com quem falei – sentimos os sentimentos de outros animais. Sentimos a sua alegria exuberante e sem limites e o seu sofrimento pungente, o seu embaraço e o seu ciúme vão. Quando observo um animal, não estou à procura da palavra mais próxima para descrever o comportamento que vejo; estou a sentir a emoção directamente, sem palavras ou mesmo um entendimento completo e consciente das acções do animal.
Será isto apenas o efeito de eu viver em Boulder, Colorado, numa elevação de mil e oitocentos metros de altitude? Talvez, mas uma série de estudos recentes parecem apoiar a minha impressão de que consigo sentir o que os animais estão a sentir e que não estou a projectar as minhas próprias emoções isoladas. Os meus sentimentos sabem o que se passa dentro do animal e esta empatia emocional parece ser inata.
Os estudos mais intrigantes sobre sentimentos partilhados envolvem “neurónios em espelho”. Este é o nome dado a uma parte do cérebro que parece permitir-nos compreender o comportamento de outro indivíduo imaginando-nos a ter o mesmo comportamento e então projectando-nos mentalmente para o lugar do outro indivíduo. Continuamos sem saber em que medidas as várias espécies partilham esta capacidade, mas há provas entusiasmantes de que ela existe e que os seres humanos não são os únicos a possuí-la.
A investigação de Vittorio Gallese, Giacomo Rizzolatti e os seus colegas na Universidade de Parma, em Itália, sugere uma base neurológica para as intenções de partilha, que descobriram nos seus estudos sobre macacas. Em 2006 o Dr. Rizzolatti foi citado no New York Times dizendo: “Demorámos vários anos a acreditar no que estávamos a ver (Sandra Blakeslee, “Cells That Read Minds”, New York Times, 10 de Janeiro, 2006, http://www.nytimes.com/2006/oi/io/science/iomirr; V. Gallese, “Mirror Neurons, from Grasping to Language”, Consciousness Bulletin, Fall 1998: 3-4). O cérebro do macaco contém uma classe especial de células, chamadas neurónios em espelho, que disparam quando o animal vê ou ouve uma acção e quando o animal realiza a mesma acção sozinho.” Continuou: “Os neurónios em espelho permitem-nos apreender a mente dos outros, não pelo raciocínio conceptual, mas através de estimulações directas. Sentido, não pensado.” Os investigadores crêem que os neurónios em espelho também podem ser usados em outras modalidades como ouvir e cheirar.
A investigação sobre os neurónios em espelho é verdadeiramente excitante e os resultados destes esforços serão úteis para responder a questões sobre que espécies de animais poderão ter “teorias da mente” ou “empatia cognitiva” sobre os estados mentais de outros. Gallese e o filósofo Alvin Goldman (Vittorio Gallese e Alvin Goldman, “Mirror Neurons and the Simulation Theory of Mind-Reading”, Trends in Cognitive Science 2, 1998: 493-501) sugerem que os neurónios em espelho poderão “permitir a um organismo detectar certos estados mentais de indivíduos da mesma espécie…como parte ou como precursor de uma capacidade mais geral de ler a mente2. Laurie Carr e seus colegas (Laurie Carr et al., “Neural Mechanisms of Empathy in Humans: A Relay from Neural Systems for Imitation to Limbic Areas”, Proceedings of the National Academy of Sciences 100, 2003: 5497-5502) descobriram, utilizando a neuroimagiologia em seres humanos, padrões semelhantes de activação neuronal quando um indivíduo observava uma expressão facial que representa uma emoção e quando ele ou ela imitava a expressão facial. Esta investigação sugere um esboço neurológico da empatia. E os investigadores britânicos Chris e Uta Frith (Chris Frith e Uta Frith, “Interacting Minds – A Biological Basis”, Science 286, 1999: 1692-1695) também relataram resultados de imagiologia neurológica em seres humanos que sugerem uma base neurológica para uma forma de “inteligência social”, ou o meio que usamos para compreender os estados mentais dos outros.
São necessários mais dados para determinar se os neurónios em espelho, ou os neurónios que funcionam como eles, se encontram em outras espécies, e se podem realmente desempenhar um papel na partilha de intenções ou sentimentos – talvez como chaves da empatia entre os indivíduos. A continuidade evolutiva aponta para a conclusão razoável de que é altamente provável que eles existam em muitas espécies diferentes. Mais uma vez, pode haver neurónio em espelho para modalidades sensoriais além da visão. Muitos animais comunicam os seus sentimentos usando sons e odores além do comportamento visível.(…)
(…) a investigação de Hal Markowitz (Hal Markowitz, Behavioral Enrichment in the Zoo, Nova Iorque: Van Reinhold Company,1982) sobre macacos Diana em cativeiro mostra que eles participam num comportamento que sugere fortemente empatia. Os indivíduos foram treinados para introduzir uma moeda numa ranhura para obter comida. A fêmea mais velha do grupo não conseguiu aprender a fazer isso. O seu companheiro viu as suas tentativas falhadas e em três ocasiões aproximou-se dela, apanhou as moedas que ela deixara cair, introduziu-as na máquina e deixou-a ficar com a comida. O macho aparentemente avaliou a situação, só ajudou a sua companheira depois de ela ter falhado e pareceu entender que ela precisava de comida mas não conseguia obtê-la sozinha. Ele podia ter comido a comida, mas deixou a sua companheira ficar com ela. Não havia provas de que o macho beneficiasse de qualquer outra forma além de ajudar a sua companheira. Da mesma forma, cientistas no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha (A.P.Mellis, B. Hare, e M. Tomasello, “Chimpanzees Recruit the Best Collaborators”, Science 311, 2006: 1297-1300; ver também: Bob Holmes, “Chimpanzees Show Hints of Higher Human Traits”, New Scientist, 2 de Março, 2006, http/ www.newscientist) descobriram que chimpanzés em cativeiro ajudavam outros a conseguir comida. Quando um chimpanzé vê que o seu vizinho não chega à comida, abre a jaula do vizinho, para que o macaco possa ir buscá-la. Os neurónios em espelho também podem explicar as observações da macacos rhesus que não aceitam comida se isso fizer sofrer outro macaco, e de ratos empáticos que reagem mais intensamente a estímulos de dor depois de observarem outros ratos com dor.
Por fim, estão a surgir provas de que o antropomorfismo pode ser um modo intrínseco de conceptualizar o mundo em geral e não só outros animais. Investigações recentes realizadas por Andrea Heberlein e Ralph Adolphs, “Impaired Spontaneus Anthropomorphizing Despite intact Perception and Social Knowledge”. Proceedings of the National Academy of Sciences 101, 2004: 7487-7491) revelam que a amígdala do cérebro é usada quando atribuímos intenção e emoções a objectos inanimados ou a acontecimentos, como quando falamos de padrões de ondas “agressivos” ou de ondas “revoltosas”. Heberlein e Adolphs estudaram um paciente chamado SM que tinha lesões na amígdala e descobriram que SM descrevia um filme de formas animadas em termos completamente associais e geométricos, apesar de ter uma percepção visual normal. A sua investigação sugere que a “capacidade humana de antropomorfizar vem de alguns dos mesmos sistemas neurológicos que as reacções emocionais básicas”. A minha leitura desta investigação e a minha própria experiência com animais é de que “Sentimos, logo antropomorfizamos”. E estamos programados para ver intenções e estados mentais humanos em acontecimentos em que não é possível que estes estejam envolvidos.
O antropomorfismo é um fenómeno muito mais complexo do que esperávamos. É muito possível que a vontade humana aparentemente natural de atribuir emoções aos animais, longe de obscurecer a “verdadeira” natureza dos animais – pode na verdade reflectir uma forma de saber muito correcta. E o conhecimento que é alcançado, apoiado por investigações científicas muito consistentes, é essencial para tomar decisões éticas a favor dos animais.